quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

SEXUALIDADE FEMININA

Nos últimos milhares de anos, e ainda em muitas culturas, ser mulher tem sido considerado uma coisa ruim, inferior e/ou depreciativa.
Para o ser humano, principalmente para a mulher moderna, a transformação pela qual passa durante a puberdade é algo difícil e doloroso não só fisicamente. E é justamente este período que vai afetar a fase adulta deste ser em seus principais aspectos: físico, mental, emocional e, conseqüentemente, espiritual.
O rito de passagem da criança para a mulher acontece com a Menarca - o primeiro mênstruo.

O conceito de sexualidade é amplo na medida em que se situa entre a natureza e a cultura. Natureza no que se refere ao biológico, mas, sendo o biológico "traduzido" e reinterpretado pela cultura, podemos dizer que a sexualidade – como a conhecemos – é uma construção social. E como as relações sociais se dão dentro de um campo de poder, o conceito de sexualidade comporta também uma dimensão política: a relação do poder entre os sexos.
O discurso de nossa sociedade, ainda hoje, pretende encaixar a mulher em modelos de comportamento rígidos, mantendo-a numa estreita faixa que delimita o "permissível" dentro da sexualidade como sendo uma atitude passiva de expectativa e de aceitação. Por isso é difícil para a mulher assumir a sexualidade como algo seu. Essa dificuldade se faz sentir em vários aspectos, como, por exemplo, no que se refere à CONSECUÇÃO do prazer sexual que, segundo os parâmetros culturais, deve aparecer como "doado" pelo homem. Não se trata aqui de propor uma simples inversão de valores, delegando apenas à mulher a parte ativa na relação sexual, como defendem algumas equivocadas "feministas de plantão". A relação homem/mulher, inclusive sexual, deveria ser partilhada, pois seus impasses ou sucessos dependem de ambos os parceiros.
Devemos ressaltar neste ponto a questão da polaridade que independe do fator biológico-sexual. Existem mulheres ativas (positivas); assim como passivas (negativas). E na mesma proporção homens ativos e passivos.
A vivência da sexualidade, tanto masculina quanto feminina em nossa cultura é permeada pelo desconhecimento, pela incapacidade de se falar naturalmente sobre ela. Que motivos levariam o indivíduo a negar o saber que possui sobre si mesmo? Moldar a identidade pelo desconhecimento é uma estratégia de sobrevivência desenvolvida no sentido de cumprir o modelo social estabelecido. Essa negação de um saber sobre si mesmo proporciona que todo um esquema de sujeição possa ser desenvolvido e internalizado. Assim, a menina "sem maldade" é aquela que ignora o segredo do seu corpo e de sua sexualidade, ou que esconde o seu saber; entretanto os valores, as normas e interdições sociais configuram "modelos sociais" diversos para o homem e para mulher. Para o homem é, sobretudo, um modelo que consente, que incentiva a fazer. Espera-se que ele exerça a sexualidade (mesmo que de maneira deturpada), e o "bom" desempenho sexual é uma preocupação e uma pressão fisiológica comum. E de pensarmos que a melhor maneira de nos relacionarmos com a menstruação seria ignorá-la tanto quanto possível e, assim como todas as mulheres, conviver com barrigas doloridas e um humor terrível? Esta atitude está enraizada na negação da feminilidade (silêncio), negação esta que atravessa a história dos últimos milhares de anos.
Em um tempo mais distante, quando homens e mulheres adoravam a Grande Deusa, ou o Grande Mistério, não existiam esses entraves quanto à sexualidade; tudo era mais simples e natural. Depois, já no período Matriarcal, houve uma restrição dos papeis masculinos, onde a Natureza feminina transformou-se, pouco a pouco, em "mistérios" aos quais os homens tinham pouco ou nenhum acesso. Perdeu-se, lentamente, o entendimento da Grande Deusa, e o Culto ficou restrito à Deusa, que deixou de ser uma Face para ser o Centro do Culto.
A cerca de três mil anos a.C. deu-se início o deslocamento, em longo prazo, do pêndulo da história humana e, à medida que passávamos ao Patriarcado, os valores foram sendo orientados para o masculino e a posição das mulheres na sociedade foi sofrendo uma transformação de tal ordem que os aspectos da vida relacionados ao feminino foram denegridos [1].
Com o decorrer do tempo, isso levou a uma associação da vergonha do corpo e ficamos dependentes da mente. Nos últimos milhares de anos as principais religiões do mundo surgiram como patriarcais (em vários planos).
A vergonha do corpo e a vergonha de ser mulher rapidamente se acrescentam à vergonha da menstruação. Há uma "vergonha" incutida na humanidade, que as mulheres "carregam" pelos simples fato de serem mulheres: no mito de Adão e Eva, tal como foi e é interpretada, a vergonha masculina só existe por causa da presença da mulher, que com sua intuição "deu ouvido" à Serpente e partiu em busca da Sabedoria (e onde está o erro??). Seria bom que levássemos a sério estas histórias, pois embora não sejam factuais, são as pedras angulares dos dogmas religiosos atuais do Ocidente e Oriente Médio.
Na Idade Média, para dar apoio religioso ao patriarcado ocidental, houve algumas re-criações sutis — e outras não tão sutis assim — dos velhos mitos. As mulheres passaram a ser corruptoras e deviam ser temíveis e repudiadas pelos servos de um deus totalmente masculino. A própria Gênesis foi deturpada para que isso pudesse acontecer. O Conhecimento do Bem e do Mal passou a ser o conhecimento do Sexo (como uma coisa "do diabo") sendo a Serpente colocada como o próprio Mal, Satanás, ou "Príncipe das Trevas", ao invés de reconhecê-la como SHAITAN, O que traz Sabedoria. E assim, Eva (a rameira com seus insidiosos poderes de sedução) corrompeu o inocente Adão, não porque ela buscasse o conhecimento e sim porque ela queria sexo. E a maldição de Deus caiu em forma de dores para gerar os filhos: "com dores você vai parir os filhos. Você vai desejar seu marido, mas ele será seu dono" (Gen. 3:16) e foi incluída aí a menstruação como a "maldição" mensal através da qual Eva (todas nós) paga por seus "pecados". Aqueles que deturparam o mito não se ativeram para um detalhe: que com esta versão eles consideraram todos os homens, incluindo a si próprios, como idiotas manipuláveis.
O aumento do poder do patriarcado continuou seu percurso e embora práticas pagãs continuassem existindo em alguns pontos da Europa até a Idade Média, o Cristianismo as "destruiu", auxiliado pelas mudanças sócio-econômicas e pelo terror das guerras e da peste.
Depois do Cristianismo foi a Revolução Industrial do século XIX que trouxe novas mudanças: as mulheres foram divididas em três estereótipos culturais: as estóicas parideiras e operárias, as mulheres frágeis, e as prostitutas.
Para as operárias a menstruação era um incômodo que baixava sua produtividade, para as donas de casa era a comprovação da fragilidade, para as prostitutas, dias sem clientela.
Isso influenciou todo o processo posterior até chegarmos, com essa herança, na sociedade atual.
À medida que um número crescente de mulheres sai para trabalhar e que a nossa sociedade se desenvolve em termo de equivalência sexual, o estereótipo da mulher frágil e dependente vai-se desvanecendo. Já é mais um motivo de escárnio que um sinal de status. Passamos a dar maior valor à produtividade que ao lazer, e, para as mulheres já não é tão satisfatório ou econômico permanecer em casa.
De início, o feminismo moderno rejeitou as idéias da influência hormonal sobre as mulheres. Se as mulheres fossem julgadas inconfiáveis e/ou inconstantes devido às mudanças em seus hormônios no decorrer do mês, esta suposta inconfiabilidade era utilizada como uma razão para mantê-las afastadas das posições de poder. Em vista disto as "feministas" pregaram, equivocadamente, a TOTAL IGUALDADE COM OS HOMENS. Mas essa necessidade de conquistar a igualdade no mundo profissional nos conduziu a dispensar algumas idéias boas junto com as ruins.
Em geral, há pelo menos um vislumbre de verdade em qualquer ideologia, e os médicos do período Vitoriano não estavam completamente errados ao enfatizarem a importância da menstruação na saúde global das mulheres, o relacionamento entre o útero e o psiquismo e a sensatez do repouso durante o período menstrual. Rejeitamos essa idéia por nos lembrar a impotência e a "doença". Mas dizer-se que algo não é uma doença não significa necessariamente o mesmo que ignorá-lo completamente.
As mudanças sociais durante os últimos quarenta anos podem parecer uma revolução, mas de muitas maneiras o que tem ocorrido é uma assimilação. As mulheres que buscam poder em um "mundo masculino" têm se voltado para isso, tornando-se pseudo-homens. Vários discursos feministas tentam (e conseguem por vezes) derrubar tabus, mas incorrem no erro de dizer que "nenhuma mulher menstruaria se não fosse obrigada a isso" (Germaine Greer em The Female Eunuch). Essa foi em grande parte a linha seguida pelo feminismo nos idos de 1960 a 1970 e só com a ascensão do movimento da espiritualidade feminina a menstruação começou a ser considerada algo sagrado e significativo.

OS SÍMBOLOS
Por trás de atitudes e crenças há uma rede de símbolos e mitos que constituem uma parte permanente do padrão da experiência humana. O (re) conhecimento desses símbolos está arraigado em nós e nos é transmitido como um legado. Não importa o quanto tentamos ignorá-los eles continuam a existir e invadir nossa vida inconsciente com a sua influência Mágica.

A LUA
A lua tem sido associada à loucura e à violência, mas também à inspiração e ao amor. No inglês a raiz das palavras moon (lua) e mind (mente) é a palavra indo-européia MANA ou MEN, que significa mente, e um atributo de MA, a Mãe Suprema. As fazes da lua representam as Faces da Deusa que, por sua vez, é uma manifestação da Grande Deusa Primordial, ou Mãe Suprema. Assim como afeta o fluxo das águas, nossos fluidos corporais também são regidos pelo crescer e minguar da lua. Assim é o corpo da mulher - um equilíbrio hormonal em constante mutação, resultando em um fluxo e refluxo de fluidos: o sangue que flui durante a menstruação; a fase "seca" após o final do período; o muco que escorre durante a ovulação; os sucos da copulação (algumas mulheres chegam a ejacular quando têm orgasmos).
A parte técnica do período menstrual é vinculada à lua pela matemática:
A duração média do ciclo menstrual é de 29,5 dias que é exatamente o mesmo tempo que a lua demora em circundar a órbita da Terra.
A duração média da gravidez é de 265,8 dias exatamente 9 meses lunares (265,8 ÷ 9 = 29,5). A ocasião mais propícia para conceber é o 14º dia do ciclo (o que torna o período real de gravidez composto de 38 semanas, ou 266 dias, diferente do que dizem os médicos que calculam em 40 ou 42 semanas).
A ovulação é o sinal para a liberação dos hormônios que estimulam a formação do ENDOMÉTRIO, o revestimento do útero. O endométrio desprende-se (se não houver concepção) 14 dias após a ovulação: é o período do sangramento.

O SANGUE
Um dos símbolos mais antigos e centrais, representando a vida; o símbolo primal da Força da Vida. É um dos primeiros sacramentos utilizados pela humanidade.
Nas diversas religiões o vinho tinto simboliza o Sangue, por vezes reconhecido como o próprio sangue menstrual, considerado sagrado nas culturas da Antigüidade. Conforme as culturas por todo mundo se tornaram patriarcais, foram desenvolvidos rituais de puberdade para os homens, também envolvendo derramamento de sangue, como imitação das perdas sangüíneas das mulheres.
Supõe-se que o costume do sacrifício de sangue originou-se da prática de se utilizar o sangue menstrual como sacramento. À medida que os sacerdotes ganhavam poder e as perspectiva das mulheres foi desaparecendo, também o poder da menstruação foi afastado dos rituais de adoração e reverência. Em vez de honrar a Deusa/Deus Interior, a religião voltou-se para a idéia de uma força externa que necessitava ser aplacada pela oferenda do sangue de um animal ou de uma pessoa jovem. Isso pode ser visto como uma distorção do Conhecimento Antigo. A oferenda do sangue menstrual era e é uma afirmação da Vida.

A SERPENTE
Muitas culturas do mundo têm reverenciado a Serpente como símbolo universal da Renovação. Como KUNDALINI [2], é considerada a sede da energia Cósmica, símbolo da Vida e do Sexo (tanto o masculino, devido a sua forma fálica, quanto o feminino, devido ao seu ventre). Na Serpente URÆUS se vê a personificação do olho de Deus e a representação da Deusa de muitos nomes. OUROBOROS a serpente que morde a própria cauda é símbolo da infinitude do eterno retorno, da descida do Espírito para o mundo físico e do seu regresso. A Serpente é SETh, é SHAITAN, o Detentor do Conhecimento e da Sabedoria que todos nós temos que alcançar.
Uma das principais associações entre as mulheres e as Serpentes é por compartilharem um padrão de desprendimento cíclico. Para a Serpente, o que se desprende é a pele; para a mulher, o revestimento do útero. Uma vez que a pele é desprendida, a morte do feto potencial promove o renascimento da mulher. Eis o sacrifício sutil que com o não entendimento se tornou uma prática ritual em um passado relativamente recente.

O RESGATE
Neste momento, defrontamo-nos com um desafio: ser "senhora de si", apesar das estratégias de passividade e desconhecimento da violência, do medo, da dificuldade de individuação. Responder a este desafio, antes de qualquer coisa, é admitir a contradição, a transformação como um processo de constante FAZER e REFAZER na construção cotidiana de nós mesmas.
Resgatar é, pois, romper com a linguagem imposta, com o silêncio. E, também, procurar nomear o "mal sem nome": INSATISFAÇÃO .
O conhecimento de seu próprio corpo e a exploração de sua potencialidade permitem à mulher aprender sobre sua sexualidade, desmistificando, pela prática, tabus e interdições que a alienam de si mesmas. E só assim, permite a aproximação e descoberta do corpo do outro.
As pessoas começam a se aproximar de uma realidade em que o "feminino" e o "masculino" não constituem categorias opostas estereotipadas. O feminino só é passivo em sua polaridade, assim como o masculino é positivo. Aqui se clareia um "mistério": existem mulheres com polaridade positiva e homens com polaridade negativa. Isso não quer dizer “sapatão” ou “bicha”, que são formas estereotipadas de externalizar algo que é interno de cada um.
É comum pensar-se a liberação da mulher associada necessariamente a sucesso profissional ou a maior "liberdades de alternativas sexuais". Ora, assim a mulher liberada, torna-se uma "cópia" do que se considera o modelo de homem bem sucedido e, tal como este, negaria e desvalorizaria os atributos ditos femininos. Não nos parece que inverter os papéis seja o caminho para o questionamento da assimetria sexual.
Conhecer a si mesma interna e externamente é a melhor proposta.
Basta ter coragem!

A MULHER
Grande parte da força psíquica das mulheres está ligada ao ciclo de seus corpos, e, se ignorarmos este período e falharmos no reconhecimento de seu enorme valor, acabaremos perdendo contato com a riqueza da experiência feminina.
As culturas Oriental e indígena acreditam que a causa de muitas queixas ginecológicas é um comportamento impróprio durante a menstruação.
A menstruação é um período natural mensal em que o corpo necessita de um tempo, algumas horas ao menos, de relaxamento. Castrando esta tendência natural deixamos o corpo doente. Acompanhar as necessidades do corpo ao invés de ordenar que ele se adeqüe ao social é uma mudança importante. A mulher menstruando é considerada física e espiritualmente em seu estado mais poderoso. Permitindo que o corpo seja o professor nessa fase, pode-se APRENDER o significado disso.
Toda vez que menstruamos, ficamos em contato com o inconsciente através do nosso corpo. Daí termos fluxos mais intensos ou mais leves, mais ou menos dor ou outros sintomas, todos eles portadores de informações.
A síndrome pré-menstrual é nosso poder voltado para nós mesmas. Quando o poder é reconhecido e desenvolvido fica patente que nos traz clareza emocional e força mental, equilíbrio físico e abertura espiritual.
Nestes momentos necessitamos de solidão, e quanto mais difícil é conseguir este tempo para si, mais provável será experimentar dificuldades com a síndrome pré-menstrual. Desse modo, é possível que uma das funções dessa síndrome seja que, através da hostilidade possamos afastar aqueles que nos cercam.
É nesse período que libertamos as emoções que, se foram reprimidas, tendem a explodir em forma de lágrimas, gritos raiva ou tristeza exacerbada. Se isso não ocorre, aumenta a probabilidade de sintomas físicos: ter uma tendência contra uma determinada emoção significa que aquela emoção é a que tem mais probabilidade de surgir nesse momento; assim buscamos uma razão psicológica e um remédio físico. Muitas vezes a razão fisiológica e uma dieta e remédios podem ser de ajuda, mas a mente e o corpo não se separam e trabalhar no campo psicológico pode fazer maravilhas pela saúde de todo organismo.
Quando o Útero e a menstruação são vistos apenas como uma necessidade biológica desconfortável, a auto-estima das mulheres é correspondentemente baixa. Conscientizando-nos do papel da menstruação como uma abertura à expressão das emoções nos é permitido respeitar o processo e operar em conjunto com ele.
Para ser uma pessoa inteira é preciso permitir a si mesma uma ampla variedade de expressão emocional, até reconhecê-las todas, e substituí-las, aos poucos, por sentimentos genuínos.
É interessante observar que os sintomas da Síndrome Pré-Menstrual são mais severos nas mulheres entre os trinta e os cinqüenta anos. Uma possibilidade é o seu relacionamento com a individuação. É quando esse processo está atuante que a energia psíquica da mulher é liberada para desenvolver uma verdadeira individualidade.
A dor menstrual tem várias funções — uma delas é desviar nossa atenção para os nossos corpos. A consciência do corpo é uma habilidade sub-valorizada na nossa cultura. Na escola e em casa, somos treinadas para pensar, ver e ouvir — mas raramente somos estimuladas a sentir. Por isso a mulher deve ter muita consciência das necessidades mutáveis do seu corpo.
A fisiologia cíclica da mulher mostra que ela não pode estabelecer uma norma rígida e mantê-la a qualquer preço. Ela é um ser cíclico, com fluxo e refluxo de energia. Entrar em contato com esse ritmo e encontrar maneiras de honrá-lo é um desafio.
Os sintomas menstruais colocam-nos de volta ao contato conosco. Quando temos dor não conseguimos ignorar o fato. Quando a dor é realmente forte, é quase impossível pensar em outra coisa, senão na parte do corpo que está "gritando".
A cólica menstrual é, muitas vezes, ideopática, ou seja, conseqüência de uma disfunção orgânica não conhecida. É, por isso mesmo, o "grito" do útero avisando se algo está errado. Na medicina chinesa, as cólicas menstruais são sempre consideradas como indicativas de um desequilíbrio energético, que poderia ser corrigido por mudanças no estilo de vida e/ou na dieta, e/ou com medicamentos, e/ou fazendo tratamentos. As dificuldades emocionais podem, e geralmente provocam, não só cólicas menstruais como diversos tipos de dor. A medicina ocidental não diferencia a dor a esse ponto e, em geral, prescreve apenas analgésico (a menos que os sintomas sejam considerados sérios sob o ponto de vista da medicina).
Fisicamente, o sangramento é uma forma de eliminação e, por isso, é uma purificação do corpo. Do ponto de vista espiritual é um tempo de reconstrução interna: para o descanso, o retiro e a renovação. A menstruação é um período natural para as mulheres meditarem e estabelecerem contato interno e externo com o divino. É uma porta para dentro. Caso a mulher decida voltar-se para dentro durante o sangramento e permita a abertura desta porta de entrada, vai deixar que as informações, que estão no psiquismo, cheguem até a consciência.
No caso das mulheres que apresentam muitos sintomas, a partir do 14° dia elas já começam a experimentar o período de Kali, experimentando a fragmentação das coisas e as vendo escapar do controle, em parte por serem nutricionalmente deficientes ou ociosas ou estressadas. Nas mulheres saudáveis, é provável que a síndrome sobrevenha três ou quatro dias antes do fluxo.
A vida é um processo contínuo de autoconhecimento. Os sintomas aparecem para nos transmitir informações. Se não há um problema físico por trás do sintoma, são apenas contrações uterinas que, como no parto, provocam dor. Quando uma mulher menstrua, ela está trabalhando para dar à luz a si mesma.
É o contínuo renascimento.

IDÉIAS E SUGESTÕES DE TRABALHO COM O PERÍODO MENSTRUAL
· É essencial começar a entrar em contato consigo mesma.
· Faça um registro diário do seu ciclo, comparando os dias com as fases da lua, fazendo anotações em seu diário sobre seu nível de energia, seus impulsos, emoções, etc. Desse modo começará a aprender quais são seus próprios ritmos. É importante registrar os impulsos, mesmo que não sejam postos em prática.
· Aprenda a fazer o que SEU CORPO, e não a sociedade QUER. Aprenda a identificar suas condições e as questione, seu corpo responderá se você permitir.
· Quando estiver menstruada e tiver uma intuição forte, siga o impulso e veja o que acontece como resultado.
· Observe como ocorre a sua meditação ou outras práticas durante o período pré-menstrual e menstrual e compare com o restante do mês.
· Durante o período pré-menstrual e menstrual, a vida onírica é diferenciada, podendo-se, aí, trabalhar com os sonhos mais diretamente. Faça experiências com seus sonhos. O estado difuso de consciência que ocorre com a menstruação torna este período a época ideal para se atingir o que D. Juan chamava de 'Nagual'.
· Faça uma regressão ou retrospecto (se tiver boa memória) até se lembrar como foi a época da menarca.
· Encare sua Menstruação como um processo Alquímico.

Notas:

[1] Este período coincide com o início do que os hindus chamam Kali Yuga ou Era da Escuridão e da Confusão. Diz-se que a Kali Yuga dura aproximadamente 5.000 anos e, portanto estamos vivenciando seu final.
[2] Termo tântrico hindu para a energia em repouso na base da espinha dorsal.


Referência Bibliográfica

Berenstein, Dr. Eliezer: A Inteligência Hormonal da Mulher. Como o ciclo menstrual pode ser aliado, e não inimigo, do equilíbrio feminino. Editora Objetiva Ltda: 2001. Rio de Janeiro.
Budge, E.A. Wallis: The Gods of The Egyptians, or Studies in Egyptian Mythology. Vols. I – II. Dover Publications, Inc: 1969. New York.
Campbell, Joseph: As Máscaras de Deus. Vol. I (Mitologia Primitiva). Editora Palas Athena: 1992. São Paulo.
Castãneda, Carlos: O Segundo Círculo do Poder. Editora Record S.A.: 1995. Rio de Janeiro
Daniélou, Alain: Shiva e Dionísio. A Religião da Natureza e do Eros. Martins Fontes Editora Ltda: 1989. São Paulo.
Eliade, Mircea: História das Crenças e das Idéias Religiosas. Tomo 1 (Da Idade da Pedra aos Mistérios de Elêusis), Vol. I (Das Origens ao Judaísmo). Zahar Editores S.A.: 1983. Rio de Janeiro.
Qualls-Corbett, Nancy: A Prostituta Sagrada. A Face Eterna do Feminino. Edições Paulinas: 1990.São Paulo.
Owen, Lara: Seu Sangue é Ouro. Editora Rosa dos Tempos.

Lília Palmeira 2002, 2007©.
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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

PERFIL DE UM THELEMITA

Existe um Livro que foi canalizado no início do século XX para todos os habitantes deste planetinha, mas principalmente para os assim chamados Thélemites, termo cunhado por volta de 1530 por François Rabelais (1490–1553) em seu romance Gargântua. Isto não prova que a canalização foi falsa e sim que ainda na Renascença a atual Corrente Energética já permeava a Terra. Estudando o período pode-se perceber isto.
Partindo da acepção de Thelema [2] como sendo o modus operantis atual do planeta e não uma religião, filosofia ou algo do gênero, é correto dizer que todos os que vivem de acordo com essa Corrente são thelemitas, independente da maneira como o fazem. Como exemplo, transcrevo algumas conclusões de um homem que, em minha opinião encarnou, muito bem, a definição de um thelemita:
“É difícil ver o próprio ego. É muito fácil ver o ego dos outros. Mas esse não é o ponto, você não os pode ajudar. Tente ver o seu próprio ego. Simplesmente observe”.
Conferir AL – I, 22-23.
“... Atai-vos de modo algum! Não deixai ter diferença feita no meio de vós entre uma coisa & qualquer outra coisa; em conseqüência disto aproxima-se o prejuízo.”
“Mas quem quer que beneficie-se nisto, deixe-o ser o chefe de todos.”
Por causa dessa inimizade pelo sexo, dessa oposição e repressão, o homem está decaindo interiormente. Ele não pode se livrar de algo que é a própria raiz da sua vida, e em função desse constante conflito interior todo seu ser tomou-se neurótico. Ele está doente. Essa sexualidade pervertida, tão evidente no gênero humano, existe por causa desses homens chamados de líderes e santos; são eles os responsáveis por isto. Até que o homem se livre de tais professores, moralizadores, lideres religiosos e de seus falsos sermões, a possibilidade do amor vir à tona será nula”.
Conferir AL – I, 41
“A palavra de pecado é restrição. Ó homem! não rejeite tua esposa, se ela quiser! Ó amante, se tu queres, parta! Não há laço que possa unir o dividido senão o amor: tudo alem disso é uma maldição...”
“A ambição cria a inquietação. Eu gostaria que entendesses tua ambição. O desejo cria inquietação. Eu gostaria que fosses consciente dos teus desejos”.
Conferir AL - I, 44.
“Pela vontade pura, aliviada de propósito, livre de desejo de resultado, é cada caminho perfeito.”
“Quando a dúvida desaparece, a crença também desaparece. Fé não é crença porque não é a metade, é total. Fé não é crença porque nela não há dúvida, portanto como podes crer? Fé não é racionalização, absolutamente: não é contra nem a favor disto ou daquilo. Ter fé é ter confiança, uma confiança profunda, amor”.
Conferir AL - I, 58.
Eu dou prazeres inimagináveis sobre a terra; certeza, não crença, enquanto em vida, sobre a morte...”
“Disciplina que vem de fora é decoração. Ela deve vir do interior. Deve espalhar-se para a periferia, vinda do centro...” “medroso, temendo morrer, apavorado por perder-te a ti mesmo, temeroso de te entregares, irás tornar-te vítima dos pequenos ensinamentos”.
Conferir AL – I, 31.
“Para estes tolos dos homens e suas aflições tu não cuidarás de todo! Eles pouco percebem; o que é, é equilibrado por meio de escassos prazeres;”
“Quando você sente o tipo de situação que está ocorrendo, você imediatamente se transforma para que as pessoas lhe dêem atenção.
Esta é uma forma profunda de mendicância.
Um verdadeiro mendigo é aquele que pede e exige atenção. Um verdadeiro imperador é aquele que vive em sua interioridade; ele tem um centro próprio, não depende de mais ninguém”.
Conferir AL – II, 58.
“Portanto os reis da terra deverão ser reis para sempre: os escravos deverão servir... Um rei pode escolher seu traje como ele desejar: não existe teste fixo: mas um mendigo não pode ocultar sua pobreza.”
“Um mendigo que pensa ser um imperador, sabe que é um mendigo. Este é o problema: ele pensa que é um imperador finge que é um imperador, e no fundo sabe que é um mendigo. Ele se sente bastante satisfeito com o seu reinado, mas um profundo descontentamento o segue como uma sombra: ‘sou apenas um mendigo’. Este é o seu problema: você pensa algo sobre si mesmo e sabe que não é verdade”.
Conferir AL – II, 59.
Tomai cuidado portanto! Amai a todos para que não haja, talvez, um Rei ocultado! Você fala desta maneira? Tolo! Se ele é um Rei, tu não podes ofende-lo.”
“... prepare-se para a sua morte! É claro que haverá pânico, medo, apreensão. O salto está destinado a ser difícil... se você estiver pronto para morrer, isso acontecerá... abandone a mente, o corpo, o ego, a identidade – e de repente, verá que algo novo está nascendo em você, que está se tornando um útero, que está ficando prenhe”.
Conferir AL – II, 72.
“Empenhe-se sempre por mais! e se tu és verdadeiramente meu – e não duvides disso, e se tu estás sempre prazeroso! – morte é a coroa de tudo.”
“É claro que penetrar no abismo é perigoso. Mas tem de ser assim. Porque na superfície você é muito ativo, pode trabalhar como um autômato, não precisa de nenhuma atenção. Entretanto, quanto mais penetrar no abismo, mais e mais alerta deverá estar porque a todo o momento a morte será possível”.
Conferir AL – III, 17.
“Receio de modo algum; não receais nem homens nem Destinos, nem deuses, nem coisa alguma. Não receai riqueza, nem risada das pessoas tolas, nem qualquer outro poder no céu ou sobre a terra ou sob a terra. Nu é vosso refúgio, como Hadit vossa luz; e Eu sou a firmeza, força, vigor, de vossos braços.”
“A mente usa o truque da projeção para esquivar-se do conflito interno porque esse conflito é muito doloroso – por muitas razões. A razão básica é que todas as pessoas têm uma imagem muito boa de si mesmas. Com a ilusão você pode tornar-se quase centrado. Esse centro que acontece na ilusão, entretanto, é o ego”.
Conferir AL – III, 63.
“O tolo lê este Livro da Lei, e seu comentário; & ele não o compreende.”
Esse thelemite nasceu em Kuchwada, Madhya Pradesh, Índia, em 11 de dezembro de 1931. Seus avós, com quem passou os sete primeiros anos de vida, apoiavam suas precoces investigações sobre a verdade da vida, lhe dando absoluta liberdade para fazer o que bem quisesse. Desde cedo desafiou os dogmas religiosos, sociais e políticos insistindo em buscar a verdade por si mesmo, ao invés de adquirir conhecimentos e crenças impingidos por outros. Só freqüentou escolas formais depois dos sete anos.
Nunca teve um ‘guru’, nenhum mestre espiritual a seu lado.
Graduou-se em Filosofia no Jain College, fez sua pós-graduação na Universidade de Sagar. Lecionou em duas Faculdades, mas em 1966, depois de nove anos limitado pela função de professor de Filosofia na Universidade de Jabalpur, abandonou o cargo e passou a viajar por todo país, dando palestras, desafiando líderes religiosos ortodoxos em debates públicos, desconcertando as crenças tradicionais e chocando o "status quo".
Com a maturidade percebeu que essa atitude era inútil.
Em 1970 Bhagwan Shree Rajneesh, estabeleceu-se em Bombaim, onde morou e ensinou por alguns anos. Nesse período nasce a Meditação Dinâmica e o neo-sannyas.
“... acho que a instituição do sannyas [3] , tal como existiu até agora, está agonizante; está praticamente morta... mas continuo usando a palavra sannyas porque vejo nela outro significado, muito mais completo que o antigo. Quero dizer a renúncia e todas as condições que o mundo impôs a vocês...”
Em abril de 1981 parou de falar em público e iniciou uma fase de "comunhão silenciosa de coração-a-coração". Em junho de 1981 vai para os Estados Unidos por causa de sua saúde. Em 1982/83 solicita visto de residente na qualidade de professor de religião, mas o visto é negado sob a alegação de que ele se mantém em silêncio e, portanto, não pode ser professor. Os pregadores cristãos fundamentalistas sugerem que Rajneesh é o anticristo, as autoridades em diversos escalões dificultam sua estadia. O procurador-geral do Oregon declara Rajneeshpuram ilegal [4] pelo fato de que “naquele lugar religião e Estado se misturam”.
Em Outubro de 1984 acaba o período de silêncio.
Em 1985 vem à tona todo um conjunto de atos ilegais cometidos por um grupo de pessoas que cuidavam da administração da cidade, que fogem para a Alemanha. Rajneesh convidou as autoridades americanas para que procedessem a todas as investigações necessárias, mas em outubro desse mesmo ano foi preso em Charlotte, Carolina do Norte, sem um mandado de prisão. Sua viagem de volta ao Oregon, onde seria julgado - normalmente um vôo de cinco horas - demorou doze dias. Onde esteve neste período é uma incógnita. Quando voltou Rajneesh, aconselhado por seus advogados (norte americanos), concordou com um acordo. Foi multado e obrigado a deixar os Estados Unidos, com retorno proibido pelos próximos cinco anos. No mesmo dia voou para a Índia em avião particular, onde permaneceu em repouso nos Himalaias. Após isto, enfrentou uma verdadeira "via crucis" pelo mundo, mas onde quer que tentasse tinha sua permanência negada pelas autoridades, por visível influência do governo norte americano. Ao todo, vinte e um países o expulsaram ou negaram o visto de entrada.
Mas o que importa é a sua obra, e no seu trabalho, ele falou praticamente sobre todos os aspectos do desenvolvimento da consciência humana. Psicologia, Psiquiatria, Sufismo, Budismo, Cristianismo, Islamismo, o Tao, Hinduísmo, Filosofia, Yoga, Tantra, Zen...
Chuang Tzu, George Gurdjieff, Buda, Rabindranath Tagore, Freud, Jung, Reich, Boheme, Eckhart, Lao Tse... Rajneesh extraiu de cada um a essência do que é significativo na busca espiritual do homem, baseando-se não apenas na compreensão intelectual, mas sim na sua própria experiência existencial.
Ele diz: "Minha mensagem não é uma doutrina, não é uma filosofia. Minha mensagem é uma certa alquimia, uma ciência da transformação; assim, somente aqueles que estão dispostos a morrer como são e a renascer em algo tão novo que agora nem podem imaginar, somente essas poucas pessoas corajosas estarão prontas a me ouvir, porque isto será perigoso. Ouvindo, você dá o primeiro passo em direção ao renascimento”.
“Não sou um guru”, diz ele, “mas não nego a necessidade a vocês de serem discípulos. Todos os meus esforços visam a despertar o guru dentro de vocês”.
Esses discípulos decidiram chamá-lo OSHO, um termo derivado do Japonês que foi primeiro usado por Eka, dirigido a seu mestre Bodhidharma. ‘O’ significa “com grande respeito, amor e gratidão” e também “sincronicidade” e “harmonia”; ‘SHO’ significa “expansão multidimensional da consciência” e “existência chovendo por todas as direções”.
Não devemos esquecer que os que pretendem estar dando continuidade ao ‘trabalho e ensinamento de Bhagwan Shree Rajneesh apenas seguem suas próprias interpretações do que foi dito; isto acontece com todos os que têm algo a ensinar. Os seguidores ou discípulos acabam caindo no erro do culto à personalidade do “Mestre”, como acontece com todas as tradições. Os que citam Osho como Guru ou algo parecido não entendem o que ele disse no decorrer de sua vida. Nas palavras de Rajneesh existem conhecimento e indicações, mas o entendimento que leva à Iniciação depende do processo de cada um. Como ele mesmo disse: “Eu não posso dar a você o meu entendimento. Eu posso falar acerca dele... Você terá que encontrá-lo. Você terá que entrar na vida”.
“Eu posso comunicar-me com você apenas intelectualmente. Se você pode realmente entender, então o que não foi dito pode ser sentido”.
“Assim, procure, seja um buscador e não seja um discípulo. Então você não será um discípulo de algum guru, mas um discípulo da vida total”.
Em Fevereiro de 1989 Osho inicia sua última série de palestras intitulada “O Manifesto Zen”.
“O Manifesto Zen é absolutamente necessário, porque todas as antigas religiões estão se despedaçando... antes que a casa velha caia, vocês precisam criar uma casa nova. E desta vez não cometam o mesmo erro...”
“este momento é muito valioso... Desta vez, a humanidade precisa dar um salto quântico, saindo das velhas mentiras apodrecidas para a nova verdade, a verdade eternamente nova. Este é Manifesto Zen”.
Osho deixou seu corpo em 19 de janeiro de 1990. Algumas semanas antes dessa data lhe foi perguntado o que aconteceria com seu trabalho quando ele partisse. Ele disse: "Minha confiança na existência é absoluta. Se houver alguma verdade naquilo que estou dizendo, isso irá sobreviver...”
OSHO
NUNCA NASCEU
NUNCA MORREU
APENAS VISITOU ESTE PLANETA TERRA
ENTRE
1931 - 1990

Notas:

[1] O Livro da Lei (AL vel Legis) foi canalizado em 1904 no Cairo por Aleister Crowley com ajuda de sua esposa. Para maiores explicações veja Os Livros Sagrados de Thelema, de A. Crowley, publicado no Brasil pela Madras/Anúbis Editores. Ou The Equinox of the Gods, de A. Crowley, pela New Falcon Publications.
[2] Thelema, (em grego Θελημα) pode ser traduzida por Vontade. A Lei é o Amor e a Vontade é seu movimento.
[3] A antiga interpretação de sannyas era renúncia. Os sannyasins eram instados a renunciar ao mundo.
[4] Depois de várias apelações, a legalidade da cidade de Rajneeshpuram foi decretada pela Suprema Corte dos Estados Unidos em Maio de 1988, mais de dois anos depois que Rajneesh retornara à Índia.

Referência Bibliográfica:

Osho: Autobiografia de um Místico Espiritualmente Incorreto. Editora Pensamento-Cultrix LTDA.: 2001. São Paulo.
- todos os livros de Bhagawan Shree Rajneesh (Osho) publicados por várias editoras.
Staley, Michael: The Heart of Thelema. Published by Starfire Magazine, Vol I. – 3. Starfire Publishing Ltd: 1989. London.
Crowley, Aleister: Liber Al vel Legis (Liber CCXX) com fac-símile MS (Liber XXXI) e o Comentário. Tradução para Língua Portuguesa de Cláudio Carvalho e Lília Palmeira. Publicação Privada: 2002; rev. 2006. Rio de Janeiro.

Lília Palmeira – 2003, 2006©.
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domingo, 28 de outubro de 2007

O CONHECIDO, O DESCONHECIDO E O INCOGNOSCÍVEL.

UM ENSAIO SOBRE OS ENSINAMENTOS DE D. JUAN

“Os antigos videntes procuravam o máximo dentro do Conhecido – controle sobre o mundo – Poder. Achavam que o Desconhecido e o Incognoscível eram a mesma coisa. Tornaram-se perdidos neste poder, apesar de adquirirem um conhecimento enorme não conseguiram "abrir mão" dele em prol da Liberdade. Ainda hoje existem ecos desses homens”.
Os Ensinamentos de D. Juan
Os novos videntes (já sob influência do novo Æon) corrigiram este erro. Para eles e os de sua linhagem, o Desconhecido torna-se Conhecido em um dado momento – quando se completa a travessia do Abismo. Mas o Incognoscível ainda é, para eles, algo que jamais será conhecido e ainda assim está Ali, com sua vastidão. Com essa distinção começou o novo ciclo. Aleister Crowley percebeu esta distinção e as reformulações que fez frente às Ordens existentes visava este estágio: o Homem deve tornar-se o que sempre foi, i.e., Deus. Para ele o "Grau de Ipssissimus" era o ponto máximo que se pode atingir. O Desconhecido ser totalmente Conhecido.
Ainda durante esse período intermediário entre eras ocorre uma nova mutação: o Incognoscível torna-se passível de ser alcançado. A partir daí o ponto a ser alcançado pelos videntes do Novo Æon é o Nada – o Incognoscível.
A ÁGUIA
"O poder que governa o destino de todos os seres vivos é chamado a Águia...
... a Águia reflete equânime e subitamente sobre todas essas coisas vivas. Não há nenhum modo, portanto, do homem suplicar à Águia, pedir favores, esperar sua misericórdia."
Do Regulamento do Nagual.
Para tentar entender a Águia é necessário entender a Consciência. E a primeira verdade sobre a Consciência é que o mundo não é realmente como pensamos. O mundo é como parece, e, entretanto não é. O mundo é uma ilusão e, no entanto, ele é real. Nós percebemos, isto é um fato. Mas o que percebemos não é um fato concreto porque nos é ensinado o que perceber desde pequenos. E, certamente, o homem médio não consegue testemunhar campos de energia.
“Algo "lá fora" afeta nossos sentidos. Esta é a parte que é Real. O que existe realmente são Emanações, fluidas, sempre em movimento e, no entanto, inalteráveis, eternas. Essa Força indescritível é a fonte de todos os seres sencientes. Os antigos videntes, da tradição indígena, a chamaram de Águia. É a Águia que concede consciência. Ela cria os seres para que estes vivam e enriqueçam a consciência, e depois, Ela "devora" essa consciência enriquecida. A grande dificuldade é que não há maneira de descrever em palavras o que são realmente as Emanações da Águia. É preciso Testemunhá-las”.
Os Ensinamentos de D. Juan
Por isso, desde a mais remota Antigüidade, os homens utilizaram metáforas poéticas, mitos e lendas para tentar explicar as Emanações da Águia.
De acordo com 'Espada', um oglala Teton dos Dakotas, "o mais poderoso de todos os wakans (espíritos) é Nagi Tanka, o Grande Espírito, que é também Taku Skanskan... quer dizer o azul... Wakan Tanka é como dezesseis pessoas diferentes, mas cada uma delas é Kan”. (J.R.Walker, The Sun Dance and Others Ceremonies of the Oglala Division of the Teton Dakota (Museu Norte-Americano de História Natural, Documentos Antropológicos, vol.XVI, parte II - 1917).
O Grande Espírito dos Oglala é o que chamamos Deus. Mas "Ele" é, ao mesmo tempo, emanação (as 16 pessoas ou kalas) do Grande Mistério. A Águia, no dizer de D. Juan.
Hancoka Olowampi - Canção da Meia-Noite - (Jamie Sans, autora de As Cartas do Caminho Sagrado, editado no Brasil pela Rocco, 1993.) chama a Fonte da Criação de Grande Mistério, o qual não tem limites e é o Criador mesmo do Grande Espírito. Ele é o Vazio, vive em Tudo, é Tudo, engloba Tudo na Criação. "Dentro" desta infinita Criação, representada pelo Grande Mistério, existe um Núcleo Vibracional ou fonte de energia primária, que denominamos "Grande Espírito”.
"A Raça Vermelha considera que o Grande Mistério é a Força Vital que rege toda a Criação. O Grande Espírito, por sua vez, é visto como sendo uma Força criativa ilimitada que atua ‘dentro’ do grande Mistério. Nada na Sabedoria Seneca limita o Grande Mistério a gênero, forma, textura, cor ou intenção... todas as Idéias presentes na Criação provêm do Grande Mistério, são reunidas pelo Grande Espírito e depois são utilizadas para alimentar o resto da Criação."
No dizer de D. Juan, o Grande Mistério é a Águia, o Incognoscível, enquanto que o Grande Espírito é o Nagual, o Desconhecido. E Wakan é o Nagual de cada um.
Para os Gregos, o Início de Tudo eram as Trevas. E das Trevas brotou o Caos; e deles nasceu a Noite, deusa das Trevas e filha do Caos, mãe de todos os Deuses. A Noite, ou Eurínome, é, em Si mesma, a própria Treva, i.e., o Vazio. Seu movimento é o Caos, e através desse movimento Ela se manifesta e gera a si mesma e ao mundo. Mais uma vez vemos as Emanações da Águia (Trevas) gerando e movimentando os mundos.
Como sabemos, muito da Cosmogonia Grega foi tirada dos mitos egípcios. Podemos tecer comparações a partir de um trecho de um dos Textos das Pirâmides:
“No Início nada havia, nada existia, Tudo era Treva e escuridão.
Nada tinha forma e não se tomava consciência dos outros
Pois não havia como distinguí-los porque não havia luz...
Mas neste abismo cósmico onde a possibilidade de tudo esperava,
Uma força, trazendo dentro de si a eternidade,
Como se fosse massa disforme, ali permanecia,
Silente... (...) “
Os antigos egípcios denominavam o estado de latência de Nun de Caos Primordial. "Dentro" deste Oceano (não confundir com as Águas Primordiais de Binah) havia uma força que trazia dentro de si a eternidade e a possibilidade de Tudo. Dessas Trevas surge Atum e diz:
"Eu sou um tornado dois. Eu sou dois tornado quatro.
Eu sou quatro tornado oito, mas Eu sou Um."
No esquema conhecido por Árvore da Vida o Grande Mistério é localizado “acima” dos véus da negatividade, sendo o Grande Espírito a Primeira Manifestação de onde surgem todas as coisas.
"No globo Eu sou, em qualquer lugar o centro, enquanto Ela, a Circunferência, é em parte alguma encontrada.” - AL. II, 3.
"Eu sou o eixo da roda da revolução e o cubo no círculo."
- AL. II, 7.
Podemos apreender, então, que as Emanações da Águia formam tudo o que percebemos, vemos, conhecemos. Mas Ela não é manifestada, somente suas emanações. Por isso temos que testemunhá-las. Para tanto precisamos da nossa totalidade, pois Testemunhar as Emanações da Águia sem preparo prévio é a morte ou loucura. Mas o que é a totalidade de um homem?
D. Juan nos fala do Tonal e do Nagual de cada um, da espreita e do sonhar, das atenções necessárias no Caminho, do Salto no Abismo.
O Tonal engloba tudo o que o intelecto pode conceber. É o Ego, que só trabalha na primeira atenção, a consciência "animal", primária: os sentidos, o raciocínio, os hábitos plantados. É o que somos como homens comuns. Deve ser desenvolvido e conhecido ao máximo, pois é esse desenvolvimento que transforma o homem comum em Guerreiro. Esse é o 'trabalhar a personalidade' que tantas filosofias dizem ser fundamental. Foi isso que Aleister Crowley quis dizer com “é preciso exacerbar o Ego ao máximo”.
O Nagual é o caráter ou a Natureza do Homem. Aqui neste nível de realização, ou Segunda atenção, o Guerreiro atinge um estado mais complexo e especializado do brilho da consciência de quem é, o que é, e da meta a ser atingida. A Segunda atenção, para ser devidamente utilizada, requer quebra de hábitos, para o que se precisa de disciplina e concentração. O Nagual de cada um é o Indescritível, o espírito, o abstrato, o Sagrado Anjo Guardião; que se manifesta a todos a todo momento, mas só com o aprimoramento do Tonal e o desenvolvimento da Segunda atenção se pode sintonizar e perceber as revelações e sinais que Ele mostra.
A Totalidade do ser é atingida quando o brilho da Consciência se transforma em Fogo Interior. É a união total dos opostos. Seria como o “TONAGUAL" - a expansão máxima do Tonal engolfada pela consciência total do Nagual. O Desconhecido completamente Conhecido. A Terceira Atenção. E o ápice da terceira atenção, a Sabedoria unida ao Entendimento, é o único meio de ser, buscar e atingir o NADA. Qabalisticamente pode-se dizer que atingir e permanecer na terceira atenção é completar a travessia do Abismo, atingir e permanecer nas Supernas, e, então, Unificá-las (3 em 1). Este é o processo para transpor os Véus Negativos para além de Nox, para o Vazio - o NADA.

Lília Palmeira – 2003, 2006©.
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